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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

O Rapaz, o elevador  e a  rosa...


 3  anos atrás, eu vinha  no elevador, carregando minha bolsa  e  um livro chamado " O primo Basílio" de  Eça  de  Queiros,  junto comigo  entrou no elevador um rapaz.

Uns 20 anos, bem alto passando de 1,90 prováveis. Um corpo ainda em formação, magro e sem grandes atrativos atléticos que normalmente já  se manifestam nesta  idade.

Seu rosto é um mix  de  adolescência  e experiência tão complexo que  chega   as  raias do inexplicável, talvez pela  moldura pesada de seus óculos quadrados, talvez   pela curiosidade  de seu olhar enquanto me ignorava fitando a capa  do livro...

Em um tom de  sarcasmo eu  o cumprimentei e notei que  eu tinha  esquecido de apertar   o botão  do 2 andar, e estávamos indo para o 20 onde ele mora...

Sem manifestar qualquer interesse por minha pessoa  ele  perguntou s eu já  tinha terminado o livro, e eu respondi que sim, e perguntei se ele gostaria que eu emprestasse. Sem nem ao menos perguntarmos nossos  nomes, ele desceu levando meu "Primo Basílio" como quem  leva uma  joia.


Nosso segundo encontro, foi um mês depois,  e desta feita  ele carregava um livro chamado " "Madame  Pompadou"
 Ao me  ver,  sorriu como uma  criança e disse..." Puxa que bom que encontrei você,  estou carregando este livro a um mês na esperança de  te encontrar, já estava desistindo...e me entregou o livro como se eu tivesse  encomendado, sem saber  se eu tinha interesse ou não...ele apertou o botão do segundo andar, com seus  gestos  refinados e disse, tome o tempo que precisar....

E assim  seguimos por um ano  trocando livros, lendo trechos. Por vezes  eu o acompanhava até o 20  andar para que ele  lesse  um trecho de  algo que tinha achado interessante, as vezes  eu descia no 20 para que ele finalizasse  ali no hall o trecho de um poema...uma vez ele leu para mim  no elevador um trecho do poema  " O laço de fita de castro Alves" leu o que foi possível entre o 2 subsolo e  o 20 andar, e arrancou aplausos de quem estava no elevador, mas  ele não se importava...estava lendo para mim, porque eu podia entendê-lo...esse era o trecho:

Não sabes, criança? 'Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.

Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu'enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.

Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.

Até  que um dia  ele finalmente perguntou meu nome,  e então me dei conta que nos conhecíamos além de nossos nomes, antes mesmo de sabê-los, jamais olhávamos um para o outro, olhávamos sempre para os livros e seus trechos interessantes... 

Quando eu disse meu nome, ele sorriu e disse...seu nome significa " Rosa Graciosa", e completou, faz  justiça  a sua alma...eu me  Chamo Benjamin.

Neste  dia  dei ao Benjamim um livro que queria que ele lesse, chamado "Senhora" de José de Alencar.E  disse  a ele " tome o tempo que precisar.."

Seis  meses  se passaram até ontem, quando desci do carro, e estava um  pouco triste...ele correu para me alcançar como faz sempre e eufórico me disse..."como você consegue desaparecer assim?"

 Ele trazia nas mãos o meu livro para devolver,  e  quando  eu perguntei  o que mais ele tinha gostado ele disse..."Quando  o Marido devolve a esposa  o dote  e pede o divorcio, e depois declara seu amor"  O valor das  coisas  está no valor que damos a elas...eu o acompanhei até o 20 e descemos no hall e ele  abriu o livro nesta pagina e tinha  uma rosa  comprimida, amarela...

Eu fiquei surpresa,  minha cor de rosa  favorita é amarela, mas eu nunca disse isso a ele...e disse, como sabia que era minha  favorita, e ele respondeu," as  Rosas  são as únicas  flores com um código de cores para  cada sentimento...quando você  as oferta  a alguém, pode estar querendo falar de seus próprios sentimentos, ou dizer que compreende os sentimentos de quem as recebe."

Disse  que eu tenho uma  porta de ferro entre meu coração e  minha alma, e que toda vez que alguém chega muito perto, eu me escondo atrás dela, e não deixo ninguém entrar...como se eu protegesse um tesouro...por isso  a rosa  amarela, ela  é bela sem revelar  nenhuma intenção de amor, como fariam as  rosas vermelhas ou rosês, mas também não exibem a pureza da rosa branca, pois  a  amarela avisa que tem uma  história que você  quer proteger do julgamento alheio...

Eu sorri sem jeito e disse " Suposições Benjamin...suposições..." agradeci a rosa, e apertei o  botão do elevador, e ele finalizou. " não resista  a tristeza, deixe ela fluir...sofra enquanto ela  estiver passando por suas  veias  e a deixe sair...todas as vezes que você faz isso, ela cumpre seu ciclo e se vai, e liberta você  para um novo sentimento de  felicidade..."

Meu Deus,  ele tem 23 anos...e pensa como um lorde  da aristocracia inglesa, é tanta cultura nesta pessoa, e tantos cuidados com a alma de alguém que ele nem conhece...

As pessoas  andam por ai, tropeçando nas almas dos outros, sem dar valor, e ele demonstra cuidados,e segurança...

Não sei quando vou vê-lo de novo, e  não creio que ele queira ler o que estou lendo agora, pois as vezes eu leio coisas só para distrair, mas  eu tinha que registrar...

Benjamin, é   a personificação de "não julgue o livro pela  capa", as  vezes gosto de pensar que  ele é  um personagem extraordinário, daqueles  livros que não conseguimos doar...e que vai estar ali para me aconselhar do alto da sabedoria de  seus  1023 anos.

Vou deixar a tristeza fluir,  até que ela me abandone, e seguir em frente ....

Essa  é Pra você  garoto. Obrigada pela Rosa...você  entendeu tudo...




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