O Rapaz, o elevador e a rosa...
3 anos atrás, eu vinha no elevador, carregando minha bolsa e um livro chamado " O primo Basílio" de Eça de Queiros, junto comigo entrou no elevador um rapaz.
Uns 20 anos, bem alto passando de 1,90 prováveis. Um corpo ainda em formação, magro e sem grandes atrativos atléticos que normalmente já se manifestam nesta idade.
Seu rosto é um mix de adolescência e experiência tão complexo que chega as raias do inexplicável, talvez pela moldura pesada de seus óculos quadrados, talvez pela curiosidade de seu olhar enquanto me ignorava fitando a capa do livro...
Em um tom de sarcasmo eu o cumprimentei e notei que eu tinha esquecido de apertar o botão do 2 andar, e estávamos indo para o 20 onde ele mora...
Sem manifestar qualquer interesse por minha pessoa ele perguntou s eu já tinha terminado o livro, e eu respondi que sim, e perguntei se ele gostaria que eu emprestasse. Sem nem ao menos perguntarmos nossos nomes, ele desceu levando meu "Primo Basílio" como quem leva uma joia.
Nosso segundo encontro, foi um mês depois, e desta feita ele carregava um livro chamado " "Madame Pompadou"
- Autor: ALGRANT, CHRISTINE PEVITT
- Idioma: PORTUGUÊS
- Editora: OBJETIVA
Ao me ver, sorriu como uma criança e disse..." Puxa que bom que encontrei você, estou carregando este livro a um mês na esperança de te encontrar, já estava desistindo...e me entregou o livro como se eu tivesse encomendado, sem saber se eu tinha interesse ou não...ele apertou o botão do segundo andar, com seus gestos refinados e disse, tome o tempo que precisar....
E assim seguimos por um ano trocando livros, lendo trechos. Por vezes eu o acompanhava até o 20 andar para que ele lesse um trecho de algo que tinha achado interessante, as vezes eu descia no 20 para que ele finalizasse ali no hall o trecho de um poema...uma vez ele leu para mim no elevador um trecho do poema " O laço de fita de castro Alves" leu o que foi possível entre o 2 subsolo e o 20 andar, e arrancou aplausos de quem estava no elevador, mas ele não se importava...estava lendo para mim, porque eu podia entendê-lo...esse era o trecho:
Não sabes, criança? 'Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.
Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu'enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.
Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.
Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu'enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.
Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.
Até que um dia ele finalmente perguntou meu nome, e então me dei conta que nos conhecíamos além de nossos nomes, antes mesmo de sabê-los, jamais olhávamos um para o outro, olhávamos sempre para os livros e seus trechos interessantes...
Quando eu disse meu nome, ele sorriu e disse...seu nome significa " Rosa Graciosa", e completou, faz justiça a sua alma...eu me Chamo Benjamin.
Neste dia dei ao Benjamim um livro que queria que ele lesse, chamado "Senhora" de José de Alencar.E disse a ele " tome o tempo que precisar.."
Seis meses se passaram até ontem, quando desci do carro, e estava um pouco triste...ele correu para me alcançar como faz sempre e eufórico me disse..."como você consegue desaparecer assim?"
Ele trazia nas mãos o meu livro para devolver, e quando eu perguntei o que mais ele tinha gostado ele disse..."Quando o Marido devolve a esposa o dote e pede o divorcio, e depois declara seu amor" O valor das coisas está no valor que damos a elas...eu o acompanhei até o 20 e descemos no hall e ele abriu o livro nesta pagina e tinha uma rosa comprimida, amarela...
Eu fiquei surpresa, minha cor de rosa favorita é amarela, mas eu nunca disse isso a ele...e disse, como sabia que era minha favorita, e ele respondeu," as Rosas são as únicas flores com um código de cores para cada sentimento...quando você as oferta a alguém, pode estar querendo falar de seus próprios sentimentos, ou dizer que compreende os sentimentos de quem as recebe."
Disse que eu tenho uma porta de ferro entre meu coração e minha alma, e que toda vez que alguém chega muito perto, eu me escondo atrás dela, e não deixo ninguém entrar...como se eu protegesse um tesouro...por isso a rosa amarela, ela é bela sem revelar nenhuma intenção de amor, como fariam as rosas vermelhas ou rosês, mas também não exibem a pureza da rosa branca, pois a amarela avisa que tem uma história que você quer proteger do julgamento alheio...
Eu sorri sem jeito e disse " Suposições Benjamin...suposições..." agradeci a rosa, e apertei o botão do elevador, e ele finalizou. " não resista a tristeza, deixe ela fluir...sofra enquanto ela estiver passando por suas veias e a deixe sair...todas as vezes que você faz isso, ela cumpre seu ciclo e se vai, e liberta você para um novo sentimento de felicidade..."
Meu Deus, ele tem 23 anos...e pensa como um lorde da aristocracia inglesa, é tanta cultura nesta pessoa, e tantos cuidados com a alma de alguém que ele nem conhece...
As pessoas andam por ai, tropeçando nas almas dos outros, sem dar valor, e ele demonstra cuidados,e segurança...
Não sei quando vou vê-lo de novo, e não creio que ele queira ler o que estou lendo agora, pois as vezes eu leio coisas só para distrair, mas eu tinha que registrar...
Benjamin, é a personificação de "não julgue o livro pela capa", as vezes gosto de pensar que ele é um personagem extraordinário, daqueles livros que não conseguimos doar...e que vai estar ali para me aconselhar do alto da sabedoria de seus 1023 anos.
Vou deixar a tristeza fluir, até que ela me abandone, e seguir em frente ....
Essa é Pra você garoto. Obrigada pela Rosa...você entendeu tudo...
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